terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Lágrimas

Se existe algum fluido discriminado nesse mundo, este é a lágrima. Numa sociedade em que a razão avassala a existência dos sentimentos, é raro encontrar alguém exibindo as suas livremente. Mais raro encontrar alguém em que se possa confiar a ponto de ser capaz de cair em lágrimas sem qualquer constrangimento.
"Chorar é para fracos". O choro, as lágrimas, são agora privilégio apenas para os recém nascidos que as usam como aviso e as crianças que ainda não sabem o que é viver no mundo real. Foram abandonadas pelos que se dizem racionais, "em propósito de um bem maior", já que elas eram sempre presentes em momentos tristes e de agonia. Acontece que elas não representavam aqueles momentos, mas sim a veracidade deles.
 A lágrima limpa das expressões toda forma de máscara. Retira o preconceito, o medo. Retira a maquiagem, a cor, a raça. Torna todos iguais. Enche de Verdade o que se que exprimir. É claro que quando alguém perde algo que gosta, se sente deveras tristes. Por isso as lágrimas rolam. É fácil fingir um sorriso ou um desgosto por qualquer coisa, mas se alguém chora de tanto gargalhar, pode se ter certeza de que realmente se acha graça no que ela vê ou ouve, e se chora de desespero, realmente algo está acontecendo. Não digo que as expressões sem lágrimas são todas falsas. Não! Mas com certeza aquelas com lágrimas são verdadeiras.
Qualquer um pode receber alguém que não vê faz tempo com alegria com um abraço, mas somente amigos de verdade tem o prazer daquele abraço regado de lágrimas, demonstrando a saudade real. Uma declaração de amor com olhos marejados soa muito mais bela. Filmes que tocam de verdade fazem a platéia cair em pranto. A presença de um herói, exemplo ou ídolo leva ao choro.
A lágrima sempre estará lá nos momentos mais reais. Não se deve desprezá-la. Coloquemo-nos no lugar dessas crianças que ainda não sabem o que é o tal mundo real.

sábado, 25 de setembro de 2010

Não é incomum

Não é incomum ser amado por alguém
Não é incomum divertir-se com alguém
Mas, quando a vejo por aí com qualquer um
Não é incomum me ver chorando.



terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pseudópodes

Quando te vejo passando pela porta, em direção a multidão que se aglomera no meio do salão, não consigo tirar meus olhos de ti. Todos os músculos do meu corpo de repente parecem parar de funcionar: nem sequer pisco. Os únicos que se rendem são os respiratórios, descontrolando-se, e meu coração, que insiste em acelerar a ponto de quase explodir. Enquanto isso, por fora, só se vê um sorriso discreto.
Minha alma tenta avançar em tua direção. Meu corpo não se move. Em pouco tempo, danço contigo em meus pensamentos. Pequenas porções de minha existência avançam até se colocarem ao teu lado, envolvem um pouquinho de ti, o suficiente para que meu coração absorva e se acalme.
Pena que não percebes!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Calendário.

Todo dia acordava cedo, no mesmo horário, na mesma rotina. Todo dia o mesmo trabalho, o mesmo chefe chato, os mesmos colegas sem graça.
Mas aquele dia era diferente. Ele sentiu algo diferente. Começou a pensar à melodia estridente do despertador. Mudaria tudo, horário, rotina, tudo. Ensaiou argumentações contra o chefe, conversas sérias com os colegas de trabalho. Naquele dia se tornaria um novo empregado.
Naquele devaneio, olhou pro rádio-relógio no criado mudo, que piscava um horário quinze minutos além daquele quando normalmente já estaria se arrumando. Não acostumado com aquele novo pensamento, chegou a se desesperar. Mas lembrou, repetindo em sua mente, um novo empregado, um novo homem.
Levantou-se com toda a calma do mundo. Tomou seu café da manhã como se fosse o último, se arrumou como se fosse a uma festa. Colocava a gravata, olhando fundo em seus olhos refletidos no espelho. Já era uma nova pessoa ali mesmo, tinha certeza.
Prestes a sair, com a mão na maçaneta de sua porta da frente, respirou fundo. Chegaria tarde naquele dia, estava nos planos de mudança. Daí olhou mais acima, ao lado da porta, onde um calendário balançava preso a um prego mal colocado. O número que marcava aquele dia estava em vermelho. Olhou atônito, não acreditava: era feriado.
Afrouxou a gravata e se arrastou até o quarto, enquanto aquele antigo pensamento se esvaía. E dormiu pra acordar não sabia quando. E voltaria, o mesmo chefe, os mesmos colegas, e ele mesmo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Ponto de Ônibus.

Jamie sempre esperava o ônibus naquele mesmo ponto, todos os dias, quando voltava do trabalho. Ele esperava junto com uma moça muito bonita, que, aliás, pegava o mesmo ônibus que ele. Ele sempre quis saber seu nome. Mas as conversas com ela não passava de divagações sobre o tempo, que horas eram, ou sobre as notícias de um jornal que hora ou outra um dos dois levava consigo.
Ele sempre a deixava subir primeiro, e ficava olhando ela fazer anotações em seu caderno, alguns bancos a frente. Em pouco tempo, já sabia seu “itinerário” naquele ônibus: sentava no mesmo banco atrás do motorista, anotava alguma coisa e ficava olhando pela janela, enquanto o vento movia seus cabelos. Descia alguns pontos antes do dele, mas ainda distante para caminhar. Uma vez se sentiu impulsionado a descer com ela. Simplesmente não conseguiu. Seus pés não se moviam. Nunca havia sentido aquilo antes. Ainda mais por alguém que sequer sabia o nome.
Contentava-se em só admirá-la. Perguntava as horas só para ver seus olhos. Trazia consigo o jornal. Falava sobre o tempo. Mas não perguntava seu nome.
Um dia, ele teve de pegar outra linha, tinha um compromisso. Naquele dia, não veria os cabelos da moça ao vento, as anotações, nada. Ele queria vê-la. Ele chegou ao ponto, e mais uma vez ela estava lá, como sempre, abraçada ao seu caderno. Quando o ônibus que desta vez pegaria chegou, ele ouviu algo que não esperava: a moça o olhara com olhos fixos. Aquele instante lhe pareceu infindável. Ela sussurrou então: “Não vai na outra linha hoje?” Ele não sabia o que dizer. Ela abaixou a cabeça, como se desejasse que ele ficasse. Mas já estava praticamente dentro no carro. Subiu como num movimento automático, mas correu à janela traseira para ver se ela ainda olhava. E mais uma vez, aquele olhar.
Quando percebeu, já haviam se passado dois pontos. Sentiu de novo os seus pés rejeitando o movimento. Mas resistiu. Correu ao motorista e desceu dois pontos depois. Correu, e quando chegou, lá estava ela. Com um sorriso lindo, como ele nunca tinha visto. E conversaram, e conheceram-se, e ele pode saber seu nome.

"Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você..."


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Metalíngua.

Fatos. Situações. Mudanças. Atitudes. Notícias.
Turbilhão de ideias.
A caneta na mão. O pedaço de papel.
E sai o quê dessa mistura?
Nada que realmente preste.
A caneta trava, o papel rasga, palavras tortas, versos sem nexo.
Versos se tornam períodos tão extensos, que se transformam, depois
[de eternas redundâncias completamente desnecessárias, em
[parágrafos de prosa.
Ou
Pensamentos que são só meus extravasam
Opiniões que talvez leitores que, sem saber o contexto,
Ao lê-las, multiplicam as interpretações
(Ah, imaginação humana!)
Eis aí outro problema que faz aquela mistura
Se tornar caos:
O fato de ninguém, nunca
chegar ao que o autor pensa
por mais que isso seja insignificante.

Mas a este, abro exceções
Pois não tem significação alguma.

sábado, 8 de agosto de 2009

Carrinho de Brinquedo

Era noite de Natal. O menino esperou o ano todo por aquele dia. Ganharia o melhor presente de todos. Mostraria para os amigos e se gabaria. O carrinho de brinquedo mais moderno daquela época.
Era uma criança. Passava todos os dias brincando. Prometera a si mesmo que nunca se desvencilharia do carrinho, e, simbologicamente, que nunca abandonaria a infância. Mas não há controle para o tempo. Assim como o tempo de brincadeiras tornava o dia mais rápido, tornava também as semanas, os meses, os anos. E o menino foi crescendo.
As brincadeiras foram se tornando menos frequentes, e enfim, cessaram-se. O menino se tornou jovem e adulto. Esquecera-se da promessa que fizera junto ao carrinho.
Enfim, o menino, agora homem, cansou-se de sua vida. Trabalho, família, mais trabalho. Depois de reclamar e sofrer, lembrou-se daquela promessa. "Ah, se pudesse cumprí-la. Hoje não reclamaria."
Um dia, seu filho passou correndo com algo nas mãos, mas ele não pode ver o que era. Ao chegar ao lugar onde seu filho estava, ele se surpreendeu. "Pai, pai, olha o carrinho que encontrei quando estava ajudando a arrumar as coisas com mamãe!" Era aquele carrinho. Ele nem lembrava que ainda o guardava. "Não é muito novo, mas é melhor que os que tenho!" E uma lágrima caiu dos olhos do menino. Do menino adulto. Sentiu-se revigorado. E prometeu que nunca se desvencilharia daquele momento, e, simbologicamente, da sua eterna infância.

Ricardo Busquet