domingo, 13 de dezembro de 2009

Ponto de Ônibus.

Jamie sempre esperava o ônibus naquele mesmo ponto, todos os dias, quando voltava do trabalho. Ele esperava junto com uma moça muito bonita, que, aliás, pegava o mesmo ônibus que ele. Ele sempre quis saber seu nome. Mas as conversas com ela não passava de divagações sobre o tempo, que horas eram, ou sobre as notícias de um jornal que hora ou outra um dos dois levava consigo.
Ele sempre a deixava subir primeiro, e ficava olhando ela fazer anotações em seu caderno, alguns bancos a frente. Em pouco tempo, já sabia seu “itinerário” naquele ônibus: sentava no mesmo banco atrás do motorista, anotava alguma coisa e ficava olhando pela janela, enquanto o vento movia seus cabelos. Descia alguns pontos antes do dele, mas ainda distante para caminhar. Uma vez se sentiu impulsionado a descer com ela. Simplesmente não conseguiu. Seus pés não se moviam. Nunca havia sentido aquilo antes. Ainda mais por alguém que sequer sabia o nome.
Contentava-se em só admirá-la. Perguntava as horas só para ver seus olhos. Trazia consigo o jornal. Falava sobre o tempo. Mas não perguntava seu nome.
Um dia, ele teve de pegar outra linha, tinha um compromisso. Naquele dia, não veria os cabelos da moça ao vento, as anotações, nada. Ele queria vê-la. Ele chegou ao ponto, e mais uma vez ela estava lá, como sempre, abraçada ao seu caderno. Quando o ônibus que desta vez pegaria chegou, ele ouviu algo que não esperava: a moça o olhara com olhos fixos. Aquele instante lhe pareceu infindável. Ela sussurrou então: “Não vai na outra linha hoje?” Ele não sabia o que dizer. Ela abaixou a cabeça, como se desejasse que ele ficasse. Mas já estava praticamente dentro no carro. Subiu como num movimento automático, mas correu à janela traseira para ver se ela ainda olhava. E mais uma vez, aquele olhar.
Quando percebeu, já haviam se passado dois pontos. Sentiu de novo os seus pés rejeitando o movimento. Mas resistiu. Correu ao motorista e desceu dois pontos depois. Correu, e quando chegou, lá estava ela. Com um sorriso lindo, como ele nunca tinha visto. E conversaram, e conheceram-se, e ele pode saber seu nome.

"Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você..."


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Metalíngua.

Fatos. Situações. Mudanças. Atitudes. Notícias.
Turbilhão de ideias.
A caneta na mão. O pedaço de papel.
E sai o quê dessa mistura?
Nada que realmente preste.
A caneta trava, o papel rasga, palavras tortas, versos sem nexo.
Versos se tornam períodos tão extensos, que se transformam, depois
[de eternas redundâncias completamente desnecessárias, em
[parágrafos de prosa.
Ou
Pensamentos que são só meus extravasam
Opiniões que talvez leitores que, sem saber o contexto,
Ao lê-las, multiplicam as interpretações
(Ah, imaginação humana!)
Eis aí outro problema que faz aquela mistura
Se tornar caos:
O fato de ninguém, nunca
chegar ao que o autor pensa
por mais que isso seja insignificante.

Mas a este, abro exceções
Pois não tem significação alguma.

sábado, 8 de agosto de 2009

Carrinho de Brinquedo

Era noite de Natal. O menino esperou o ano todo por aquele dia. Ganharia o melhor presente de todos. Mostraria para os amigos e se gabaria. O carrinho de brinquedo mais moderno daquela época.
Era uma criança. Passava todos os dias brincando. Prometera a si mesmo que nunca se desvencilharia do carrinho, e, simbologicamente, que nunca abandonaria a infância. Mas não há controle para o tempo. Assim como o tempo de brincadeiras tornava o dia mais rápido, tornava também as semanas, os meses, os anos. E o menino foi crescendo.
As brincadeiras foram se tornando menos frequentes, e enfim, cessaram-se. O menino se tornou jovem e adulto. Esquecera-se da promessa que fizera junto ao carrinho.
Enfim, o menino, agora homem, cansou-se de sua vida. Trabalho, família, mais trabalho. Depois de reclamar e sofrer, lembrou-se daquela promessa. "Ah, se pudesse cumprí-la. Hoje não reclamaria."
Um dia, seu filho passou correndo com algo nas mãos, mas ele não pode ver o que era. Ao chegar ao lugar onde seu filho estava, ele se surpreendeu. "Pai, pai, olha o carrinho que encontrei quando estava ajudando a arrumar as coisas com mamãe!" Era aquele carrinho. Ele nem lembrava que ainda o guardava. "Não é muito novo, mas é melhor que os que tenho!" E uma lágrima caiu dos olhos do menino. Do menino adulto. Sentiu-se revigorado. E prometeu que nunca se desvencilharia daquele momento, e, simbologicamente, da sua eterna infância.

Ricardo Busquet

sábado, 1 de agosto de 2009

Retrovisor

Pelo retrovisor enxergamos tudo ao contrário
Letras, lados, lestes
O relógio de pulso pula de uma mão para outra
E na verdade...nada muda
A criança que me pediu dez centavos
É um homem de idade no meu retrovisor
A menina debruçando favores toda suja
É mãe de filhos que não conhece
Vendeu-os por açúcar
Prendas de quermesse
A placa do carro da frente se inverte quando passo por ele
E nesse tráfego acelero o que posso
Acho que não ultrapasso e quando o faço nem noto
O farol fecha...
Outras flores e carros surgem em meu retrovisor
Retrovisor é passado
É de vez em quando... do meu lado
Nunca é na frente
É o segundo mais tarde... próximo... seguinte
É o que passou e muitas vezes ninguém viu
Retrovisor nos mostra o que ficou; o que partiu
O que agora só ficou no pensamento
Retrovisor é mesmice em dia de trânsito lento
Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas
Mostra as ruas que escolhi... calçadas e avenidas
Deixa explícito que se vou pra frente
Coisas ficam para trás
A gente só nunca sabe... que coisas são essas.


Realmente tava sem idéia nenhuma pra postar, essas férias em casa estão me matando. Essa é a letra da música Amém, do Teatro Mágico.
É incrível como é verdade: avançamos, crescemos, e quando olhamos para trás vemos o quanto muitas pessoas e coisas que nos acompanhavam param no meio do caminho. Eu vivo isso de um modo muito marcante, por isso essa música me fala bastante.

domingo, 5 de abril de 2009

O Diário.

Um dia desses vi uma garota escrevendo num diário. Não sabia o que escrevia, mas fiquei me perguntando o que poderia ser. Comecei a viajar em meus pensamentos até que não importava mais o que era. Comecei a pensar no porquê de pessoas escreverem em diários e coisas parecidas. Lembrei do que faço agora...
Por que escrevemos? Escrevemos para podermos falar através da tinta e do papel - ou do teclado e web - o que às vezes não podemos falar em voz alta... escrevemos para falar o que apenas nós mesmos precisamos ouvir, como uma mensagem do subconsciente... Ou, às vezes, para "auto-afirmarmos", quando ninguém o faz.
Agora penso: talvez aquela garota não tivesse escrito nada de mais. Talvez fosse um agendamento, uma anotação. Nada que precisasse estar aqui. Mas como já disse: Não importa o que era. O que importa é o que significou pra mim, e só isso.