terça-feira, 25 de agosto de 2009

Metalíngua.

Fatos. Situações. Mudanças. Atitudes. Notícias.
Turbilhão de ideias.
A caneta na mão. O pedaço de papel.
E sai o quê dessa mistura?
Nada que realmente preste.
A caneta trava, o papel rasga, palavras tortas, versos sem nexo.
Versos se tornam períodos tão extensos, que se transformam, depois
[de eternas redundâncias completamente desnecessárias, em
[parágrafos de prosa.
Ou
Pensamentos que são só meus extravasam
Opiniões que talvez leitores que, sem saber o contexto,
Ao lê-las, multiplicam as interpretações
(Ah, imaginação humana!)
Eis aí outro problema que faz aquela mistura
Se tornar caos:
O fato de ninguém, nunca
chegar ao que o autor pensa
por mais que isso seja insignificante.

Mas a este, abro exceções
Pois não tem significação alguma.

sábado, 8 de agosto de 2009

Carrinho de Brinquedo

Era noite de Natal. O menino esperou o ano todo por aquele dia. Ganharia o melhor presente de todos. Mostraria para os amigos e se gabaria. O carrinho de brinquedo mais moderno daquela época.
Era uma criança. Passava todos os dias brincando. Prometera a si mesmo que nunca se desvencilharia do carrinho, e, simbologicamente, que nunca abandonaria a infância. Mas não há controle para o tempo. Assim como o tempo de brincadeiras tornava o dia mais rápido, tornava também as semanas, os meses, os anos. E o menino foi crescendo.
As brincadeiras foram se tornando menos frequentes, e enfim, cessaram-se. O menino se tornou jovem e adulto. Esquecera-se da promessa que fizera junto ao carrinho.
Enfim, o menino, agora homem, cansou-se de sua vida. Trabalho, família, mais trabalho. Depois de reclamar e sofrer, lembrou-se daquela promessa. "Ah, se pudesse cumprí-la. Hoje não reclamaria."
Um dia, seu filho passou correndo com algo nas mãos, mas ele não pode ver o que era. Ao chegar ao lugar onde seu filho estava, ele se surpreendeu. "Pai, pai, olha o carrinho que encontrei quando estava ajudando a arrumar as coisas com mamãe!" Era aquele carrinho. Ele nem lembrava que ainda o guardava. "Não é muito novo, mas é melhor que os que tenho!" E uma lágrima caiu dos olhos do menino. Do menino adulto. Sentiu-se revigorado. E prometeu que nunca se desvencilharia daquele momento, e, simbologicamente, da sua eterna infância.

Ricardo Busquet

sábado, 1 de agosto de 2009

Retrovisor

Pelo retrovisor enxergamos tudo ao contrário
Letras, lados, lestes
O relógio de pulso pula de uma mão para outra
E na verdade...nada muda
A criança que me pediu dez centavos
É um homem de idade no meu retrovisor
A menina debruçando favores toda suja
É mãe de filhos que não conhece
Vendeu-os por açúcar
Prendas de quermesse
A placa do carro da frente se inverte quando passo por ele
E nesse tráfego acelero o que posso
Acho que não ultrapasso e quando o faço nem noto
O farol fecha...
Outras flores e carros surgem em meu retrovisor
Retrovisor é passado
É de vez em quando... do meu lado
Nunca é na frente
É o segundo mais tarde... próximo... seguinte
É o que passou e muitas vezes ninguém viu
Retrovisor nos mostra o que ficou; o que partiu
O que agora só ficou no pensamento
Retrovisor é mesmice em dia de trânsito lento
Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas
Mostra as ruas que escolhi... calçadas e avenidas
Deixa explícito que se vou pra frente
Coisas ficam para trás
A gente só nunca sabe... que coisas são essas.


Realmente tava sem idéia nenhuma pra postar, essas férias em casa estão me matando. Essa é a letra da música Amém, do Teatro Mágico.
É incrível como é verdade: avançamos, crescemos, e quando olhamos para trás vemos o quanto muitas pessoas e coisas que nos acompanhavam param no meio do caminho. Eu vivo isso de um modo muito marcante, por isso essa música me fala bastante.