segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Calendário.

Todo dia acordava cedo, no mesmo horário, na mesma rotina. Todo dia o mesmo trabalho, o mesmo chefe chato, os mesmos colegas sem graça.
Mas aquele dia era diferente. Ele sentiu algo diferente. Começou a pensar à melodia estridente do despertador. Mudaria tudo, horário, rotina, tudo. Ensaiou argumentações contra o chefe, conversas sérias com os colegas de trabalho. Naquele dia se tornaria um novo empregado.
Naquele devaneio, olhou pro rádio-relógio no criado mudo, que piscava um horário quinze minutos além daquele quando normalmente já estaria se arrumando. Não acostumado com aquele novo pensamento, chegou a se desesperar. Mas lembrou, repetindo em sua mente, um novo empregado, um novo homem.
Levantou-se com toda a calma do mundo. Tomou seu café da manhã como se fosse o último, se arrumou como se fosse a uma festa. Colocava a gravata, olhando fundo em seus olhos refletidos no espelho. Já era uma nova pessoa ali mesmo, tinha certeza.
Prestes a sair, com a mão na maçaneta de sua porta da frente, respirou fundo. Chegaria tarde naquele dia, estava nos planos de mudança. Daí olhou mais acima, ao lado da porta, onde um calendário balançava preso a um prego mal colocado. O número que marcava aquele dia estava em vermelho. Olhou atônito, não acreditava: era feriado.
Afrouxou a gravata e se arrastou até o quarto, enquanto aquele antigo pensamento se esvaía. E dormiu pra acordar não sabia quando. E voltaria, o mesmo chefe, os mesmos colegas, e ele mesmo.